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Coração, cérebro, pulmão: como a Covid-19 afeta nossos órgãos vitais

Por Marcos Antonio em 09/01/2021 às 09:10:34
Em um ano, o coronavírus mostrou causar muito mais do que uma doen√ßa respiratória: ele afeta diferentes partes do corpo por uma mistura de ataque direto a células, altera√ß√Ķes na circula√ß√£o de sangue e uma rea√ß√£o inflamatória exagerada. Principais alvos da Covid-19 s√£o o pulm√£o e as vias respiratórias, mas vírus tem surpreendido por seu variado ataque, do cérebro aos rins

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Embora ainda haja muitas perguntas em aberto sobre o coronavírus que parou o mundo h√° quase um ano, cientistas conseguiram neste período correr contra o tempo e trazer muitas respostas sobre a nova doen√ßa — algumas delas surpreendentes.

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Por exemplo, a de que a Covid-19, descrita desde o início como uma doen√ßa respiratória, n√£o ataca apenas os pulm√Ķes.

Conforme o coronavírus foi se espalhando pelo mundo e adoecendo mais pessoas — até aqui, infectando pelo menos 88 milh√Ķes no planeta —, médicos e pesquisadores come√ßaram a constatar que órg√£os t√£o diferentes como cora√ß√£o, cérebro e rins também podiam ser afetados, às vezes fatalmente, pelo coronavírus.

O patógeno também j√° causou problemas em dedo dos pés, foi detectado no testículo e ainda nas l√°grimas de pacientes — mas é importante lembrar que ser encontrado em uma parte do corpo ou no ambiente n√£o necessariamente significa adoecimento ou transmissibilidade.

Em rela√ß√£o aos chamados órg√£os vitais, porém, a doen√ßa tem gerado incógnitas, pesquisas científicas e, em alguns casos, grande preocupa√ß√£o. Por isso, a BBC News Brasil procurou artigos científicos e pesquisadores brasileiros para responder o que se sabe até aqui sobre as consequências da Covid-19 em cinco órg√£os fundamentais para a nossa sobrevivência: pulm√Ķes, cora√ß√£o, rins, fígado e cérebro.

Vale lembrar que a defini√ß√£o de quais s√£o os órg√£os vitais é variada, mas de acordo com os entrevistados, estes cinco est√£o mais perto de um consenso de serem fundamentais para a continuidade da vida e insubstituíveis, considerando as interven√ß√Ķes médicas existentes.

1. Pulm√Ķes

Falta de ar é sinal de que pulm√£o foi afetado, explica pesquisadora

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Apesar de afetar outras partes do corpo, ainda s√£o "as vias respiratórias e os pulm√Ķes" os principais alvos da Covid-19, lembra a pesquisadora Marisa Dolhnikoff, professora associada da Faculdade de Medicina da Universidade de S√£o Paulo (FMUSP) e coordenadora dos Estudos em Autópsia da Covid-19 no Hospital das Clínicas da faculdade.

Tudo come√ßa quando uma pessoa sadia entra em contato com gotículas do vírus, como através da tosse ou espirro de alguém infectado, ou ainda por meio do contato com uma superfície contaminada com essas partículas. A partir daí, o vírus come√ßa a "hackear" as células das vias respiratórias (canais que conduzem o ar aos pulm√Ķes, como o nariz e a traqueia) e dos pulm√Ķes, transformando-as em f√°bricas de coronavírus que se espalham por mais células.

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Tosse, coriza e espirros podem surgir por conta do ataque às vias respiratórias. Esses sintomas também podem ser reflexo do acometimento dos pulm√Ķes — mas, segundo Dolhnikoff, o sinal mais claro de que este órg√£o vital foi afetado é a falta de ar.

Um estudo publicado em junho na revista científica Lancet, com dados de 257 pacientes em Nova York (EUA), mostrou que a falta de ar foi o sintoma mais frequente na entrada no hospital, registrado em 74% dos infectados, seguido por febre (71%) e tosse (66%).

Ainda segundo a pesquisadora da USP, um outro sinal importante vem das tomografias — quando elas mostram mais de 50% da √°rea dos pulm√Ķes acometida pelo coronavírus, este é um indicador de gravidade e de insuficiência respiratória, que demanda suporte como a ventila√ß√£o mec√Ęnica. Ambos pulm√Ķes costumam ser afetados juntos.

Tanto nas vias respiratórias quanto nos pulm√Ķes, o coronavírus encontra um facilitador — células contendo receptores da proteína ECA-2, uma espécie de chave que permite o início da infec√ß√£o.

"Nos casos mais graves, h√° também infec√ß√£o dos alvéolos, estruturas respons√°veis pela troca gasosa nos pulm√Ķes — a capta√ß√£o de O2 do ar para o sangue, e libera√ß√£o de CO2", explicou por e-mail à BBC News Brasil a pesquisadora.

É por isso que os pulm√Ķes s√£o vitais — eles nos d√£o, literalmente, o ar que respiramos. O órg√£o absorve o oxigênio externo e o distribui para todo o corpo através do sangue e, na via contr√°ria, recolhe o g√°s carbônico dispensado após v√°rios processos dentro do corpo.

"Quando infectadas, as células dos alvéolos sofrem altera√ß√Ķes importantes que levam à sua morte, desencadeando um processo de inflama√ß√£o e edema pulmonar (excesso de líquido) que impedem as trocas gasosas, culminando com a insuficiência respiratória", completa Dolhnikoff, cuja equipe no Hospital das Clínicas est√° realizando desde o início da pandemia um método inovador de autópsias minimamente invasivas, de forma a evitar o cont√°gio no contato com corpos, para fins de pesquisa.

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Além da infec√ß√£o das células das vias respiratórias e dos alvéolos, em uma segunda frente, os vasos sanguíneos também s√£o atacados. Isso leva ao aumento da coagula√ß√£o e à forma√ß√£o de trombos (conjunto de sangue coagulado), que dificultam a passagem de sangue nos alvéolos. Com isso, as trocas gasosas s√£o mais uma vez comprometidas.

Ainda no início da pandemia, em abril, a equipe que est√° trabalhando com autópsias na USP publicou no periódico científico Journal of Thrombosis and Haemostasis os resultados destas an√°lises em dez pacientes, demonstrando alvéolos amplamente danificados e pequenos trombos no pulm√£o — cuja forma√ß√£o devido à Covid-19 era pouco conhecida naquele momento.

Quando o quadro pulmonar é muito grave, incluindo um conjunto de indicadores como a insuficiência respiratória e a inflama√ß√£o sistêmica, ele pode configurar a síndrome do desconforto respiratório aguda (ARDS, na sigla em inglês).

2. Coração

Se os pulm√Ķes realizam as trocas gasosas, é o cora√ß√£o que bombeia o sangue com oxigênio para o corpo e que volta para os pulm√Ķes com sangue repleto de g√°s carbônico.

E, nos quadros mais graves, este órg√£o muscular e vital é significativamente afetado — podendo levar a óbito.

Um estudo de referência, publicado em fevereiro de 2020 com dados de 138 pacientes hospitalizados em Wuhan, mostrou que 16,7% deles desenvolveram arritmia e 7,2% les√£o cardíaca aguda — ou seja, dois problemas de saúde atingindo o cora√ß√£o. Aqueles que precisaram ir para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) apresentaram estes quadros com mais frequência.

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"Na Covid-19, o cora√ß√£o pode ser atingido em até 40% dos casos graves", aponta Marisa Dolhnikoff, acrescentando outras consequências da covid-19 no cora√ß√£o como a miocardite (inflama√ß√£o no cora√ß√£o), tromboses arteriais e infarto do mioc√°rdio.

"Pessoas com comorbidades — diabetes, hipertens√£o, obesidade e cardiopatias prévias — têm maior risco de manifesta√ß√£o cardíaca na Covid-19."

Estudos de v√°rias partes do mundo mostram problemas no cora√ß√£o como uma das comorbidades mais comuns entre pacientes graves infectados — um boletim do Ministério da Saúde de dezembro revelou que, no Brasil, as cardiopatias (doen√ßas no cora√ß√£o) foram o fator de risco mais frequente entre pessoas que morreram por covid-19 no país, seguidas por diabetes.

Dolhnikoff explica que as células cardíacas também têm receptores da proteína ECA-2, ativadas no ataque direto do vírus ao órg√£o.

Mas o órg√£o pode ser afetado também pela inflama√ß√£o sistêmica, rea√ß√£o exagerada do corpo que leva a diversas altera√ß√Ķes prejudiciais como a baixa de oxigênio e à chamada tempestade de citocinas — subst√Ęncias agressivas que o sistema imunológico libera para atacar um invasor, mas que, em excesso, podem acabar atacando partes vitais para nossa sobrevivência, como o cora√ß√£o.

A partir da autópsia e de exames referentes ao caso de uma menina de 11 anos que perdeu a vida para a Covid-19, Dolhnikoff e sua equipe conseguiram demonstrar o ataque do vírus a diversas células do cora√ß√£o, nas quais foram encontradas partículas do vírus. A resposta inflamatória agravou o problema, levando à falência cardíaca e morte.

O pulm√£o da crian√ßa também foi afetado, mas os cientistas identificaram o cora√ß√£o como o órg√£o mais comprometido pelo vírus.

Os resultados foram publicados no periódico internacional Lancet Child & Adolescent Health.

3. Rins

Assim como acontece com o cora√ß√£o, quando os rins s√£o afetados pela Covid-19, o nível de alerta é aumentado.

"A les√£o renal é incremental, comp√Ķe o quadro de um doente mais complexo. S√£o doentes muito graves. Quando a doen√ßa é avassaladora, ela é avassaladora", resume o nefrologista José Suassuna, chefe do Setor de Nefrologia do Hospital Pedro Ernesto, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Hupe/Uerj).

Os rins s√£o vitais por regularem a concentra√ß√£o de √°gua no sangue e por eliminarem detritos tóxicos do corpo.

No artigo publicado no periódico Lancet envolvendo 257 pacientes em Nova York, 31% desenvolveram les√Ķes agudas neste órg√£o e precisaram das chamadas terapias de substitui√ß√£o renal, que incluem interven√ß√Ķes como a hemodi√°lise — este procedimento, em linhas gerais, substitui o órg√£o no trabalho de filtrar o sangue.

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Neste grupo nos Estados Unidos, 14% j√° tinham alguma doen√ßa crônica afetando os rins antes da Covid-19.

"Grupos de risco como obesos, diabéticos, pessoas com doen√ßas cardiovasculares e idosos muitas vezes j√° têm algum grau de comprometimento renal — ent√£o, quando infectados pelo coronavírus, n√£o partem do 0. Eles j√° est√£o na metade do caminho e caminham mais rapidamente para a insuficiência renal aguda e para a necessidade de suporte", explica Suassuna, destacando porém que h√° casos em que o paciente n√£o tem fatores de risco mas tem os rins comprometidos.

De acordo com o nefrologista, os rins também têm receptores ECA-2, mas as evidências até agora indicam que possivelmente n√£o é este ataque direto do vírus ao órg√£o o principal motivo de acometimento dos rins.

Mais uma vez, a inflama√ß√£o exacerbada do corpo ao coronavírus parece ter um papel importante.

Uma evidência disso é a conex√£o entre os pulm√Ķes e o rins, a chamada cross talk entre os órg√£os.

"É uma liga√ß√£o cruzada, a situa√ß√£o em que o acometimento de um órg√£o determina o de outro. Na covid-19, isso tem se mostrando entre rins e pulm√Ķes, assim como pulm√Ķes e cora√ß√£o. O envolvimento pulmonar mais grave se associa a um risco muito maior para os rins. H√° uma associa√ß√£o grande entre entubar e a insuficiência renal", aponta Suassuna, explicando que quando h√° esta insuficiência nos rins, o paciente deixa de urinar, precisando de suporte.

Além disso, outra explica√ß√£o para o acometimento simult√Ęneo de v√°rios órg√£os na fase mais avan√ßada da infec√ß√£o é a baixa oxigena√ß√£o.

"A Covid-19 nos deixa com uma oxigena√ß√£o como se estivéssemos subindo o Himalaia, mesmo estando a nível do mar. Uma parte funcional do rim, que ajuda a produzir a urina, j√° vive como se estivesse no Everest — no que a gente chama de hipoxia, uma oxigena√ß√£o muito baixa", diz o médico, também professor da UERJ.

"O rim é um órg√£o muito sensível às quedas de oxigena√ß√£o prolongadas porque j√° vive na beira do precipício. E à piora da oxigena√ß√£o se soma a tempestade de citocinas, um mecanismo importante da dissemina√ß√£o do dano da covid do pulm√£o para o resto do corpo."

Apesar de seu adoecimento ser um indicador de gravidade, os rins também podem ser afetados em casos mais leves, explica Suassuna. Entretanto, talvez isso nunca se manifeste em sintomas, mas apenas exames específicos de urina e de altera√ß√£o da fun√ß√£o renal.

"Os rins, em qualquer doen√ßa, sofrem em silêncio — e Covid-19 n√£o é uma exce√ß√£o", explica Suassuna, acrescentando que esse órg√£o é afetado bilateralmente, ou seja, adoece tanto do lado esquerdo quando direito.

"N√£o tem grande manifesta√ß√£o de sintomas, a maior parte dos sinais só aparece no laboratório. Temos pacientes iniciando di√°lise que n√£o sentem nada, apenas quando j√° têm menos 10% da fun√ß√£o renal. De repente, param de urinar."

4. Fígado

Exames também j√° detectaram, em alguns pacientes, altera√ß√Ķes no fígado — que tem entre suas fun√ß√Ķes eliminar toxinas do corpo, regular o a√ßúcar no sangue e ajudar na digest√£o de gorduras.

Entretanto, diferente de outros órg√£os, tais altera√ß√Ķes n√£o necessariamente significam o adoecimento do órg√£o.

"As enzimas hep√°ticas (subst√Ęncias produzidas pelo órg√£o) est√£o elevadas em cerca de 15 a 60% dos casos de COVID-19, o que sugere acometimento do fígado. Porém, estas altera√ß√Ķes das enzimas em geral n√£o provocam sintomas", explica o hepatologista Edmundo Lopes, médico do Hospital das Clínicas e professor da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).

"Apesar destes distintos mecanismos de agress√£o ao fígado durante a Covid-19, ele n√£o é comumente nem intensamente comprometido, como ocorre com outros órg√£os, como os pulm√Ķes, o cora√ß√£o e os rins", diz. "As explica√ß√Ķes para esta 'menor' agress√£o ao fígado ainda n√£o est√£o bem elucidadas."

Os distintos mecanismos de agress√£o mencionados por Lopes passam, mais uma vez, pelos efeitos da inflamatória sistêmica no corpo e também, no caso desse órg√£o respons√°vel por lidar com subst√Ęncias potencialmente tóxicas, por eventuais danos provocados pelos medicamentos usados contra a Covid-19.

A a√ß√£o direta do vírus sobre o órg√£o também é uma possibilidade, até porque as células hep√°ticas chamadas de colangiócitos têm receptores ECA-2. Entretanto, segundo o professor da UFPE, essa via direta "nunca foi muito bem demonstrada" na ciência.

"As evidências sugerem que o processo inflamatório (tempestade de citocinas) parece ter um papel relevante na agress√£o ao fígado, j√° que os pacientes mais graves e que apresentam maiores indícios de atividade inflamatória nos exames laboratoriais s√£o os que apresentam mais frequentemente e mais intensamente altera√ß√Ķes das enzimas hep√°tica", escreveu o hepatologista por e-mail à BBC News Brasil.

5. Cérebro

Covid-19 leve tem deixado efeitos neurológicos como maior ansiedade e cansa√ßo e, nos casos graves, derrame e convuls√Ķes

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Se tem um órg√£o que os entrevistados dizem estar rodeado de incógnitas sobre seu acometimento pela Covid-19, é o cérebro.

Fato é que diversos estudos e relatos de casos j√° mostraram que ele pode ser afetado, dos quadros leves aos graves.

A pesquisadora Clarissa Yasuda, médica e professora do departamento de neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que o diga: ela mesma teve Covid-19 em agosto e conta ainda sentir consequências relacionadas ao cérebro, como sono, fadiga e altera√ß√Ķes na memória.

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Ela e colegas publicaram em outubro um estudo em est√°gio pré-print (sem a chamada revis√£o dos pares, etapa padr√£o em que outros especialistas analisam um estudo e decidem se ele ser√° publicado ou n√£o em uma revista científica) com dados sobre 81 pessoas que tiveram Covid-19 leve e se recuperaram.

Esses volunt√°rios foram submetidos a exames de resson√Ęncia magnética, que detectaram altera√ß√Ķes no córtex, a parte mais externa do cérebro e fundamental para processos envolvendo a memória, linguagem, entre outros.

Question√°rios e testes cognitivos também mostraram que, em média 60 dias após o diagnóstico da covid-19, os pacientes ainda apresentavam dor de cabe√ßa (40%), fadiga (40%), altera√ß√£o de memória (30%), ansiedade (28%), depress√£o (20%), perda de olfato (28%) e paladar (16%), entre outros.

Ali√°s, Yasuda lembra que a perda destes sentidos é considerada pelos especialistas um sintoma neurológico — precisamos do cérebro para sentir gostos e cheiros.

"Acho que n√£o estava na conta de ninguém imaginar que pessoas que n√£o foram internadas, que seriam quadros 'leves', pudessem ficar com uma gama de altera√ß√Ķes neurológicas incapacitantes, como observamos n√£o só aqui mas no mundo inteiro", diz a neurologista, fazendo a ressalva de que o grupo de volunt√°rios estudados foi formado por pessoas que j√° estavam relatando sintomas neurológicos, ent√£o h√° uma inclina√ß√£o de que estes sejam mais frequentemente registrados do que se o estudo envolvesse uma popula√ß√£o mais ampla.

"Além desses casos leves (que est√£o mostrando consequências prolongadas), h√° o grupo de altera√ß√Ķes neurológicas por Covid-19 que surgem na fase aguda e que podem ser bem graves — como derrame, encefalite, convuls√£o e redu√ß√£o do nível de consciência. Em alguns casos, os derrames aumentam a chance de AVC (acidente vascular cerebral). N√£o sabemos se estes efeitos ser√£o transitórios ou se deixar√£o sequelas."

Parte da equipe que est√° trabalhando com autópsias no Hospital das Clínicas da FMUSP, o médico Amaro Nunes Duarte Neto relata que uma altera√ß√£o muito comum observada nos cérebros de pessoas que morreram após a infec√ß√£o pelo coronavírus é a les√£o dos neurônios.

"S√£o les√Ķes cerebrais decorrentes da hipóxia (oxigena√ß√£o diminuída) pelo acometimento pulmonar grave na covid-19, n√£o atribuídas diretamente ao vírus", explicou por e-mail o pesquisador.

Isto porque, como em outros órg√£os, os efeitos da Covid-19 n√£o necessariamente ocorrem devido ao ataque direto do coronavírus, mas sim pelas consequências da resposta inflamatória do corpo e de altera√ß√Ķes na circula√ß√£o do sangue, entre outros.

Por exemplo, Duarte Neto relata também a observa√ß√£o, nas autópsias, de microsangramentos nos vasos que irrigam o órg√£o, além da hipertrofia dos astrócitos — células em torno dos vasos cerebrais e que d√£o suporte fundamental para os neurônios.

Na publica√ß√£o em pré-print da qual Yasuda foi uma das autoras, a equipe demonstrou que os astrócitos foram o principal alvo do coronavírus no cérebro. Isto também a partir de 26 autópsias minimamente invasivas, realizadas por pesquisadores da Faculdade de Medicina de Ribeir√£o Preto da USP.

Mesmo que nem todo efeito neurológico do coronavírus seja atribuído ao seu ataque direto, os pesquisadores entrevistados dizem que h√° sinais de que o patógeno chega até o cérebro através do nariz, pelo mesmo caminho que um aroma "faz" para chegar até l√°.

Ainda assim, "o conhecimento sobre o mecanismo de les√£o do vírus Sars-CoV-2 no sistema nervoso central ainda é pouco esclarecido", diz o pesquisador da USP.

A professora Clarissa Yasuda concorda.

"É muita coisa que a gente n√£o sabe, muita coisa para ser estudada: o quanto desses quadros neurológicos tem um componente inflamatório, o quanto é autoimune, o quanto é um ataque direto do vírus. Ninguém tem uma resposta, mas acho que é uma combina√ß√£o disso tudo."

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Fonte: G1

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