11/08/2021 às 14h30min - Atualizada em 12/08/2021 às 00h00min

Cães e ambientes são principal foco de prevenção contra leishmaniose

Na semana de combate à doença (10 a 17 de agosto), o CRMV-SP alerta para o controle deste que é um problema de saúde pública no País e pode levar humanos e animais à morte

SALA DA NOTÍCIA Caroline Campos da Veiga
https://crmvsp.gov.br/

Pixabay

A leishmaniose é um problema de saúde pública no Brasil e em diversos países vizinhos na Região das Américas. As consequências são graves, podendo resultar em morte, invalidez e mutilação em humanos e animais, e os números chamam a atenção das autoridades sanitárias. Um relatório de 2019 sobre a incidência da doença nas Américas aponta 15.484 registros no Brasil, mais do que o triplo do computado pelo segundo e o terceiro país apontado na lista: Colômbia (5.907) e Peru (5.349). 

O levantamento foi feito pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), que nos últimos anos, apóia países endêmicos para desenvolvimento de iniciativas conjuntas em prol do fortalecimento das ações de vigilância e controle. O objetivo é reduzir as formas graves da leishmaniose, por meio do acesso ao diagnóstico precoce, ao tratamento adequado de casos e redução do contato entre pessoas e vetores.

Nesta Semana de Controle e Combate à Leishmaniose, de 10 a 17 de agosto, o Conselho Regional de Medicina Veterinária do Estado de São Paulo (CRMV-SP) alerta para a importância do controle da doença no País. Os focos principais de prevenção são os cães e os ambientes -  especialmente quintais -, explica o médico-veterinário Otávio Verlengia, membro da Comissão Técnica de Clínicos de Pequenos Animais (CTCPA) do CRMV-SP.

Segundo o profissional, é muito importante evitar a proliferação dos insetos vetores da doença, que são chamados de flebotomíneos. O cuidado é semelhante ao que se recomenda contra a proliferação do mosquito da dengue, porém o foco de reprodução não está na água parada. “No caso da leishmaniose, o vetor se reproduz em qualquer tipo de matéria orgânica”, diz Verlengia. 

Por isso, o médico-veterinário do CRMV-SP recomenda colocar qualquer entulho orgânico diretamente no lixo e não acumular nada. “Folhas, galhos de árvores, fezes de animais, restos de madeira e lixos de um modo geral. Os quintais devem estar sempre limpos”, afirma. A orientação também vale para terrenos desocupados e criatórios de cães. 

Prevenção em animais

Outra medida essencial de prevenção está relacionada diretamente aos cuidados com cães e gatos, especialmente os primeiros. No caso dos cães, há coleiras repelentes e/ou pipetas para aplicação, indica Verlengia. “Elas vão afugentar o mosquito, evitando que ele pique o cão. Se não consegue picar o animal, a doença está combatida.” Há ainda o recurso da vacina. 

No caso dos gatos, há coleiras específicas para eles também. O médico-veterinário do CRMV-SP destaca o controle populacional desses animais. “O principal alvo e hospedeiro da leishmaniose é o cão, que ao ficar solto na rua favorece essa proliferação da doença. Se os cães das ruas são controlados e os das casas estão vacinados, encoleirados e/ou com pipetas, isso diminui muito a incidência da leishmaniose”, afirma. 

Prevenção no ser humano

O uso de mosquiteiros, telas nos portões e janelas e uso de repelentes, especialmente em regiões endêmicas, ajuda na prevenção da doença em seres humanos. O mosquito vetor da leishmaniose é mais ativo em alguns períodos do dia: no amanhecer e no pôr-do-sol. Pessoas que moram ou visitam regiões endêmicas e matas não podem deixar de proteger a pele. “Quando for fazer caminhadas ou trilhas, é preciso ter cuidado, pois são locais em que se tem mais contato com o flebótomo. Então, é interessante pensar no repelente e não ficar com o corpo exposto”, reforça o médico-veterinário.

Cenário brasileiro

Um boletim especial do Ministério da Saúde sobre doenças negligenciadas, publicado em março de 2021, mostra que em 2019 o Brasil teve 2.529 casos novos confirmados de leishmaniose visceral (LV) – que ataca órgãos internos. A taxa de incidência foi de 1,2 casos a cada 100 mil habitantes. A doença foi confirmada em 24 unidades federativas, nas cinco regiões brasileiras. O nordeste é responsável pelo maior registro de casos do país (49,1%). 

A taxa de letalidade por LV em 2019 foi de 9%, sendo a mais elevada dos últimos dez anos. Nesse período, apesar da maior taxa de letalidade da LV ter sido registrada em adultos acima de 50 anos de idade (19,2%), destaca-se o elevado percentual nos menores de um ano (10,3%).

Em relação à leishmaniose tegumentar (LT) – que ataca pele e mucosas –, foram confirmados 15.484 casos novos no Brasil, em 2019, com coeficiente de detecção de 7,37 casos a cada 100 mil habitantes. No ano, do total de pacientes notificados, 67,1% evoluíram para cura clínica, enquanto 1,9% abandonaram o tratamento. Foram registrados, ainda, 19 óbitos por LT.

Segundo avaliação da médica-veterinária e presidente da Comissão Técnica de Saúde Ambiental (CTSA) do CRMV-SP, Elma Polegato, vários fatores contribuem para a leishmaniose ser considerada uma doença negligenciada e ter seus principais indicadores de ocorrência em alta. Ela aponta fatores socioeconômicos, considerando desde aspectos como as más condições de moradia e mobilidade, analfabetismo, deficiências no sistema imunológico e a desnutrição, assim como obras de infraestrutura. 

“Novas estradas e ampliação das existentes, avanço de moradias em áreas que deveriam ser preservadas, que não contabilizam o impacto ambiental e sanitário da ocorrência de doenças, e fatores ambientais diversos como desmatamento, queimadas, mudanças climáticas, etc.”, exemplifica Elma.

Migração

A médica-veterinária do CRMV-SP alerta para uma mudança de padrão da transmissão nas últimas décadas. “Inicialmente considerada zoonose de animais silvestres, que acometia ocasionalmente pessoas em contato com as florestas, a doença passou a ocorrer em zonas rurais, já praticamente desmatadas, e em regiões periurbanas, com a adaptação do mosquito e presença de reservatórios em espaços urbanos”.

Elma destaca também a expansão da leishmaniose visceral em humanos no estado de São Paulo. “É um eixo principal de disseminação no sentido noroeste para sudeste, acompanhando a rodovia Marechal Rondon e o gasoduto Bolívia-Brasil, e um eixo secundário, na direção norte-sul, acompanhando a malha rodoviária”, afirma. 

Segundo a profissional, as taxas de incidência apresentaram um pico seguido de queda, com exceção da região de São José do Rio Preto. “Observou-se maior concentração de municípios com altas taxas de incidência e mortalidade nas regiões de saúde de Araçatuba, Presidente Prudente e Marília. Essa grande obra de infraestrutura aliada às demais questões justifica a expansão da leishmaniose visceral para o sul e centro-oeste do País, pois São Paulo faz divisa com estados destas regiões”, finaliza Elma.

 


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