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Coronavírus: variante achada no Brasil poderia 'driblar' anticorpos e reinfectar quem já teve Covid-19, diz pesquisador

Por Marcos Antonio em 21/01/2021 às 17:38:38
Segundo Tulio de Oliveira, isso poderia ajudar a explicar por que Manaus, severamente atingida durante primeiro pico da pandemia, foi de novo amplamente afetada por segunda onda; eficácia das vacinas não deve estar comprometida, mas mais estudos são necessários. Mais estudos são necessários para mensurar impacto de neutralização reduzida por anticorpos em nossa imunidade, diz Tulio de Oliveira

EPA

Um novo estudo de cientistas da √Āfrica do Sul, ainda n√£o revisado por pares, d√° maior respaldo às evidências crescentes de que muta√ß√Ķes compartilhadas pelas variantes do coronavírus detectadas no Brasil e na √Āfrica do Sul podem n√£o ser neutralizadas por anticorpos produzidos pelo organismo de quem j√° foi infectado pelo SARS-CoV-2, o vírus que causa a Covid-19.

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Isso abre a possibilidade de que pessoas que tiveram doen√ßa sejam infectadas novamente se expostas a essas variantes, diz à BBC News Brasil Tulio de Oliveira, respons√°vel pelo estudo e diretor do laboratório Krisp na Escola de Medicina Nelson Mandela, na Universidade KwaZulu-Natal, em Durban, na √Āfrica do Sul, onde vive desde 1997.

No entanto, mais estudos são necessários para mensurar o impacto dessa "neutralização reduzida" dos anticorpos em nossa imunidade, ressalva ele.

Segundo Oliveira, testes em laboratório a partir do "vírus vivo" da cepa achada na √Āfrica do Sul (501Y.V2) contendo muta√ß√Ķes como E484K e N501Y — presentes também na variante do Brasil, mas n√£o na do Reino Unido — mostraram "zero ou muito baixa neutraliza√ß√£o" do patógeno pelos anticorpos.

Oliveira chefiou a equipe que descobriu a nova variante do coronavírus na √Āfrica do Sul e compartilhou os dados com a Organiza√ß√£o Mundial da Saúde (OMS), o que, por sua vez, permitiu ao Reino Unido detectar a outra variante em seu território.

Acredita-se que todas essas variantes sejam mais transmissíveis do que a original, mas n√£o se sabe, por enquanto, se mais letais. De todo modo, tende a haver mais mortes porque h√° muito mais casos.

Oliveira acrescenta que suas mais recentes descobertas também levantam "uma grande quest√£o" sobre a efic√°cia das vacinas.

"Se os resultados do laboratório mostram que essa variante é menos neutralizada pelos anticorpos, isso ter√° algum efeito na efic√°cia das vacinas?", questiona Oliveira.

"No momento, presumimos que a efic√°cia das vacinas n√£o ser√° comprometida. E se for, ser√° pouco (comprometida). Porque as vacinas desencadeiam uma resposta imunológica alta, produzindo muitos anticorpos, por exemplo. Mas ainda é uma quest√£o a ser respondida", acrescenta.

Ele reforça que esses primeiros resultados não podem servir de "desculpa" para interromper os programas de vacinação em todo o mundo.

"Esse vírus nos mostrou que se deixarmos ele circular livremente por muito tempo, se adaptar√° melhor à transmiss√£o e, potencialmente, escapar de ser neutralizado pelo sistema imunológico".

"Temos que aumentar com urgência as taxas de vacina√ß√£o e a resposta da saúde pública para que possamos controlar as taxas de infec√ß√£o o mais r√°pido possível e reduzir as taxas de mortalidade por essas variantes altamente infecciosas", acrescenta.

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'Vírus vivo'

Nos últimos dias, v√°rios estudos indicaram que muta√ß√Ķes "escapariam" da a√ß√£o de anticorpos neutralizantes produzidos pelo corpo contra o SARS-CoV-2.

No entanto, Oliveira e sua equipe foram além e usaram o "vírus vivo" pela primeira vez em testes de laboratório em oposi√ß√£o ao chamado pseudovírus — uma "técnica mais avan√ßada", explica Oliveira, usando todas as muta√ß√Ķes incluídas no vírus, e, ent√£o, fizeram compara√ß√Ķes usando a variante anterior da Covid-19.

"Os resultados mostram que mais de 50% do plasma convalescente (com anticorpos) exposto ao vírus n√£o obteve neutraliza√ß√£o. E os outros 50% obtiveram neutraliza√ß√£o de baixo nível. Quase metade dos indivíduos com quase nenhuma neutraliza√ß√£o parecia nunca ter visto o vírus antes", explica Oliveira.

"O melhor modelo para testar isso é com o vírus vivo, você pega o vírus inteiro, você infecta as células e faz crescer no laboratório, é uma técnica mais avan√ßada e depois você o re-exp√Ķe ao plasma convalescente, ent√£o você considera o taxa de crescimento do vírus e como ele é neutralizado".

"Concluímos que houve uma neutraliza√ß√£o do vírus muito menor, t√£o menor que, em tese, s√£o necess√°rios cerca de 10 a 15 vezes mais anticorpos para neutralizar o mesmo vírus em compara√ß√£o com a variante anterior", acrescenta Oliveira.

Segundo ele, "n√£o s√£o boas notícias. Esper√°vamos que aqueles que j√° tiveram a Covid-19 n√£o fossem infectados novamente. Isso abre as portas para o vírus com essas muta√ß√Ķes reinfectar as pessoas. É uma das principais quest√Ķes a serem respondidas nas próximas semanas".

Oliveira assinala que mais estudos s√£o necess√°rios para determinar o impacto disso em nossa imunidade, pois nossa resposta imunológica n√£o depende apenas dos anticorpos, mas também das chamadas células T, que atuam em conjunto com eles.

Jesse Bloom, professor-associado de Ciências do Genoma e Microbiologia da Universidade de Washington, nos Estados Unidos, concorda.

"É definitivamente claro que as muta√ß√Ķes no RBD (domínio de liga√ß√£o ao receptor), especialmente a muta√ß√£o E484K encontrada na linhagem 501Y.V2, reduzem a neutraliza√ß√£o do anticorpo. No entanto, atualmente n√£o est√° claro o quanto essa neutraliza√ß√£o reduzida diminui a efic√°cia protetora da imunidade", diz ele por e-mail à BBC News Brasil. O RBD é uma pequena por√ß√£o da proteína S do SARS-CoV-2, chave para a liga√ß√£o do vírus às células humanas e sua infec√ß√£o.

Cientistas acreditam que essa "neutraliza√ß√£o reduzida" pode ser uma das raz√Ķes pelas quais algumas partes da √Āfrica do Sul e da cidade de Manaus, no Amazonas, muito atingidas durante o primeiro pico da pandemia, foram de novo amplamente afetadas pela segunda onda — levantando dúvidas sobre a chamada "imunidade de rebanho" que alguns especialistas j√° haviam dito ter sido alcan√ßada nessas √°reas por meio de infec√ß√Ķes em massa.

A imunidade de rebanho ocorre quando uma parcela grande o suficiente da popula√ß√£o desenvolve uma defesa imunológica contra um patógeno. Nesse cen√°rio, a doen√ßa n√£o consegue se espalhar porque a maioria das pessoas é imune e ela passa a ter grande dificuldade para encontrar alguém suscetível. Esse patamar é atingido pela vacina√ß√£o em massa, e n√£o por infec√ß√Ķes em massa.

"Naturalmente, seria de se esperar que essas regi√Ķes n√£o fossem muito afetadas pela segunda onda da pandemia, e n√£o é o que vimos", diz Oliveira.

"Ainda temos que investigar se essa nova variante menos neutralizada por anticorpos em laboratório causar√° maiores taxas de infec√ß√£o", acrescenta.

"O objetivo da vacina n√£o é parar a transmiss√£o; é fazer com que as pessoas que s√£o infectadas n√£o desenvolvam sintomas muito sérios. O principal objetivo é salvar vidas. E n√£o só a vacina, mas a resposta da saúde pública, de testagem e rastreamento e isolamento e medidas de distanciamento social para tentar diminuir o número de infectados", conclui.

Fonte: G1

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