23/09/2021 às 13h28min - Atualizada em 26/09/2021 às 00h00min

Como ocorre a perda do olfato e do paladar, sequelas comuns da COVID-19?

(*) Fernanda M. Cercal Eduardo

SALA DA NOTÍCIA NQM
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A perda do olfato e do paladar, infelizmente, vem sendo comum durante as infecções pela COVID-19. Tanto é que, praticamente, se tornou um sinal patognomônico, ou seja, próprio e característico da patologia. Embora outras afecções também possam transcorrer com essa perda sensitiva, a exemplo dos resfriados e de outras infecções virais, é particularmente interessante que o Sars-CoV-2 afete principalmente os receptores sensoriais dos sabores doce e amargo presentes dentro da boca humana, mais especificamente na língua.

Quanto ao olfato, ele flui da parte posterior da boca para a nasofaringe e assim chega à cavidade nasal, além dos receptores sensoriais específicos presentes dentro do nariz. De modo geral, eles são capazes de sensibilizar-se às moléculas voláteis ou a outras substâncias dispersas no ar inspirado. Os receptores sensoriais de olfato (cheiro) e paladar (sabor) estão presentes no nosso organismo porque possuem funções específicas e importantes para a sobrevivência humana.

Essas estruturas captam informações do meio que nos cerca e, a partir do nervo periférico, encaminham essas informações ao sistema nervoso central que as interpreta e produz respostas a estes estímulos. Para que este processo todo ocorra da maneira correta é necessário que todas as estruturas envolvidas estejam íntegras.

Uma das funções mais importantes desse processo é a proteção do corpo, pois não sentir odores pode levar a correr riscos como, por exemplo, não sentir cheiro de vazamento de gás ou de comida estragada. Outra função relacionada à essas vias de condução está no reconhecimento dos sabores, condição essencial para nos motivar a ter uma alimentação diversificada que faça com que as células recebam os mais variados nutrientes necessários para bom funcionamento.


No caso das infecções relatadas ocorre uma inflamação ou na terminação nervosa (receptores sensoriais) ou na via condutora do nervo que é o axônio propriamente dito. Anosmia é o nome que se dá à perda completa do olfato e paladar. Com o passar do tempo, à medida que o nervo vai se recuperando de forma gradativa, ela se transforma em parosmia que é quando percebe-se sinais de distorção dos cheiros e sabores por falha na detecção e/ou traduções dos sentidos conduzidos ao cérebro.

Lesões nas terminações nervosas e nos nervos periféricos não são incomuns, mas o sucesso de sua recuperação funcional é baseado na fisiologia do processo de reparo neural. Nesse caso, pode-se dizer que a recuperação desses sentidos irá depender de alguns fatores como idade, extensão da lesão inicial provocada pela infecção/inflamação, velocidade do processo de reparo do tecido neural e período transcorrido entre a lesão e o reparo.

Um dano severo no axônio leva à interrupção de sua integridade. De 48 a 96 horas após a lesão inicial ocorre um processo de degeneração para preparar o processo de regeneração. Lá pelo sétimo dia inicia-se a limpeza da lesão inicial e a quimiotaxia (ou neurotropismo), processo que irá orientar a proliferação e crescimento axonal. Em humanos, a taxa de crescimento é de aproximadamente 1mm por dia. Essa breve explanação descreve a lentidão de todo o processo que é exatamente o que tem sido visto em alguns casos persistentes de sequelados da Covid-19.

Um novo estudo recentemente publicado acompanhou 97 pacientes com anosmia ou parosmia pós-Covid. Com oito meses de acompanhamento se confirmou a recuperação total em 49 de 51 pacientes (96,1%). Porém, parece que há algo mais envolvido já que, dos 49 recuperados, apenas 23 relataram percepção do retorno total do seu olfato e paladar. Isso quer dizer que, mesmo a avaliação acusando a recuperação total, em torno de 50% dos participantes do estudo acreditavam que o problema ainda estava presente na sua vida diária.

Agora entendendo um pouco mais sobre a fisiologia do reparo neural é importante que pacientes com tais sequelas procurem o quanto antes ajuda profissional, a fim de estimular a recuperação. Uma intervenção precoce evita problemas de regeneração como a formação das fibroses, por exemplo. São recomendadas terapias para os sentidos, uma espécie de treinamento olfativo orientado por neurologistas, otorrinolaringologistas e fisioterapeutas neurofuncionais. Além da utilização de óleos essenciais, outros odores e sabores específicos, é importante pensar no cheiro e no sabor experimentados – e até mesmo proferi-los – para que as conexões neurais possam ir se refazendo a partir da plasticidade do sistema nervoso. Dessa forma, as entradas sensoriais serão estímulos essenciais para facilitar e aumentar a velocidade de recuperação.

(*) Fernanda M. Cercal Eduardo é fisioterapeuta, mestre em Tecnologia em Saúde e coordenadora do curso de Fisioterapia do Centro Universitário Internacional Uninter


 
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