22/10/2021 às 14h42min - Atualizada em 23/10/2021 às 00h00min

A realidade da mulher brasileira no outubro rosa

*Ana Paula Weinfurter Lima Coimbra de Oliveira

SALA DA NOTÍCIA Ana Paula Weinfurter Lima Coimbra de Oliveira

Chegamos novamente ao mês de outubro em que observamos maior esforço em ações relacionadas à saúde da mulher e à prevenção do câncer de mama. O exame preconizado para rastreamento e diagnóstico é a mamografia, e no Brasil a população-alvo são mulheres entre 50 e 69 anos, seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). Parte desta recomendação está relacionada às limitações da mamografia em mulheres jovens, que possuem a mama densa.

Durante a pandemia por COVID-19, houve uma diminuição na realização deste exame, sobretudo das mamografias de rastreamento, cuja queda chegou a 41% em 2020, segundo dados do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Mas, se analisarmos de maneira mais ampla, a pandemia apenas acentuou dificuldades que há muito já vêm sendo observadas na prevenção deste tipo de câncer.

Por exemplo, os parâmetros do Inca indicam a necessidade de um mamógrafo a cada 240 mil habitantes, o que nos deixa com um total de aparelhos no país que seria mais de cinco vezes superior ao necessário (4844 aparelhos em uso atualmente). Entretanto há uma distribuição bastante irregular de mamógrafos, com grande concentração na região Sudeste (2271 aparelhos – mais de 50% do total) o que traz dificuldades de acesso rápido ao exame sobretudo para populações em cidades pequenas ou em outras regiões. Também há certa carência de profissionais que costumam se concentrar em exames de ressonâncias e tomografias de emergência, reduzindo sua agenda anual para mamografias.

Somado a isso, precisamos considerar situações relacionadas às próprias pacientes, como os relatos de dificuldades de agendamento e realização do exame. Muitas delas dependem de transporte público, vivem em regiões afastadas das Unidades Básicas de Saúde e relatam a necessidade de “madrugar” na fila para conseguir senha para atendimento, muitas vezes, não conseguindo. Além disso, há a insegurança em sair de casa tão cedo para ir até a unidade básica e a realização do exame, muitas vezes, é determinada em local distante da residência da paciente dificultando o deslocamento.

Muitas mulheres, principalmente na faixa etária alvo, relatam falta de recursos, esquecimento por conta de se tratar de uma medida preventiva e não de tratamento, medo do desconforto do exame, vergonha em permitir que o profissional manuseie e examine suas mamas e a famosa frase “não vou ao médico pois quem procura, acha”.

Levando todas estas situações em consideração, é importante que se concentrem esforços não só em políticas públicas de melhoria de acesso ao atendimento, mas principalmente nas ações de educação em saúde.

A Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, por exemplo, disponibilizou para a população-alvo (50 a 69 anos) a possibilidade de agendamento telefônico da mamografia no mês do seu aniversário, mesmo sem o pedido médico. Há também uma unidade móvel Mulheres de Peito que se desloca para realização de mamografias gratuitas.

Ações como estas precisam ser mais difundidas e uma atuação de excelência do Sistema Único de Saúde deve atingir todo o país. Mas, muito além, é preciso conscientizar as mulheres que é urgente abandonar a ideia de que o médico deve ser procurado apenas quando há queixas ou sintomas, que prevenir é sempre melhor do que remediar e que a cultura do ‘não vou a médico porque tenho medo de achar doença’ não traz benefício algum, nem para a mulher e nem para o sistema de saúde.

*Ana Paula Weinfurter Lima Coimbra de Oliveira é farmacêutica, especialista em Citologia Clínica, mestre em Ciências Farmacêuticas, professora de pós-graduação no Centro Universitário Internacional Uninter.

 


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