08/03/2022 às 14h43min - Atualizada em 08/03/2022 às 22h30min

Linchamentos, onde continuamos errando?

Dinamara P. Machado (*) e Renata Burgo Fedato (*)

SALA DA NOTÍCIA NQM
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Desde o século 18, formas de violência coletiva, ainda não denominadas pelo termo específico “linchamento”, eram comuns contra negros e protetores da escravidão, buscando fazer justiça com os meios mais repulsivos de castigo ao corpo.

Um dos pesquisadores mais atuantes nesta temática é Jose de Souza Martins, que com sua prosa contundente descortina pela sociologia as marginalidades de uma vida em sociedade. Na mesma perspectiva, podemos trazer os irmãos Villa Lobos, Darcy Ribeiro, Carmem Junqueira, pesquisadores que dedicaram sua obra em buscar o amago de nossa estranheza com outros povos, comportamentos e com o diferente.

Desde tempos remotos, a humanidade mostra-se carente de pertencimento, de criação de raízes em seu local de moradia, de vivência, de educação, de família e de amigos. Quando tratamos de linchamentos, imediatamente nos lembramos de Maria Madalena, uma personagem bíblica que é apedrejada. Desde esses tempos, trata-se de impor ao outro uma vingança, um suplício, uma humilhação, e eliminá-lo publicamente como ser humano.

Práticas educativas que tenham capacidade de ação e transformação em meio a projetos políticos contra-hegemônicos podem se manifestar como fortalecedoras de um processo de resistência a desigualdade e a injustiça. Infelizmente a triste constatação de que os direitos humanos emergem à medida que direitos são violados, e sempre nessa tentativa de reverter a violação que automaticamente leva a exclusão são a realidade expressa nos atos de violência coletiva ou de linchamentos no Brasil.

Por diversas vezes, não compreendemos ações que nos parecem sem objetivos pedagógicos, como o famoso feijão plantado no algodão durante a educação infantil. Porém, essa simples prática salienta a importância da preservação e do cuidado com a vida. A vida deve ser valorizada desde a educação infantil, não banalizando a vida, o ser humano e suas necessidades.

Entendemos o terreno fértil que práticas pedagógicas podem ter na dimensão da prática social, alicerçada de intencionalidades educativas em que seja possível a reflexão de elementos estruturais de classe social, desigualdade, capital, trabalho, opressão e libertação, diante da sociedade conservadora e violenta.

Crer nas instituições sociais, nos setores de justiça e igualdade, é imprescindível para manutenção da democracia, da civilidade ou, simplesmente, a divisão entre os seres que têm cultura – consciência, e aqueles que somente vivem a partir do instituto natural. Apoderar-se da justiça, fazê-la com as próprias mãos e isso apenas virar mais uma cena do cotidiano, é com certeza outro aval para descrença no dever e poder do Estado.

A descrença não somente nas instituições sociais, como também nas novas gerações. Sem referências, a sociedade perde sua crença nas instituições, e isso no futuro resultará em novas atrocidades. Será que já esquecemos as barbaridades do período nazista, da Roda dos Expostos, dos diversos crimes cibernéticos de exposição, do índio Galdino? E ainda mais recentemente, o ato criminoso contra Moïse Kabagambe, assassinado ao menos com 30 pauladas no Rio de Janeiro.

Segundo pesquisa de Machado e Mocelin (2021), há um longo caminho para uma sociedade mais justa e igualitária que “ainda será percorrido por diferentes gerações, a fim de que elas possam sair do ápice das estatísticas e tornar-se sujeitos de direitos”.

Convidamos pais, professores e demais interessados para realizarem práticas em que despertem a consciência de que somos sujeitos de direito que necessitam carregam o “R” de Respeito como princípio de vida em sociedade. 



*Dinamara Pereira Machado é doutora em Letras. Diretora da Escola Superior de Educação do Centro Universitário Internacional Uninter

* Renata Burgo Fedato é doutoranda em Educação. Professora tutora da Escola Superior de Educação do Centro Universitário Internacional Uninter
 
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