10/03/2022 às 15h06min - Atualizada em 10/03/2022 às 18h00min

Presencial, híbrida ou remota, como vai ser a sala de aula pós-pandemia?

Por que a discussão sobre o modelo de ensino é menos relevante do que pensar em qual escola vai receber os alunos Tiago Ribeiro, head of business da Hybre, edtech especializada em soluções para o futuro das salas de aula

SALA DA NOTÍCIA Leticia Leal

A despeito do avanço da variante Ômicron e do número crescente de casos de coronavírus no fim do ano passado, ao menos 20 estados e o Distrito Federal retomaram aulas presenciais obrigatórias no Brasil em 2022. A aparente contradição entre o volume de infectados e a reabertura das instituições de ensino gerou um grande debate sobre o futuro da educação e os protocolos necessários durante a pandemia, mas a dicotomia entre “precisamos voltar” e “não podemos voltar agora” tem minado outros aspectos necessários para o debate. Enquanto pensamos se a sala de aula deveria ser presencial, híbrida ou remota, perdemos uma chance de debater um aspecto ainda mais relevante: de qual sala de aula estamos falando, afinal?

Durante séculos, a principal mudança estrutural em salas de aula foi a disposição dos estudantes, arrumados em formato arena ou em fileiras. A raiz dessas mudanças é o quanto a instituição de ensino esperava de participação nas aulas, sem que isso afetasse o protagonismo do professor, único responsável pelo ritmo e guardião do conteúdo. A evolução tecnológica concentrou-se historicamente em suportes para esse formato, com soluções voltadas a aumentar possibilidades de exposição - o quadro negro ou a projeção de slides, por exemplo.

Antes mesmo de a pandemia chacoalhar a realidade da educação, contudo, essa lógica vinha sendo transformada. Entre tantas mudanças provocadas pelo advento da internet, as gerações mais novas passaram a ler de forma diferente e criaram uma nova dinâmica de consumo de conteúdo, mais baseada em camadas e totalmente voltada ao aprofundamento. Se antes o professor era a única fonte sobre um assunto em sala de aula, nos últimos anos os alunos vinham se afeiçoando à ideia de ter a vida como uma plataforma de streaming ou um device de automação doméstica: o usuário decide o ritmo, escolhe os temas em que prefere se aprofundar e assume o protagonismo na condução de qualquer história, independentemente de seu nível de conhecimento sobre o tema.

Foi essa geração, cada vez mais ávida por personalização e experiências omnichannel, que a pandemia trancafiou nos últimos anos. Quando as escolas foram obrigadas a adotar o ensino remoto, portanto, muitos alunos encontraram um contexto em que a escola se aproximou de seu padrão de consumo de informação.

O problema é que o resultado não foi apenas positivo. Segundo estudo publicado em outubro de 2021 pelos pesquisadores Guilherme Lichand, Carlos Alberto Doria, Onicio Leal Neto, da Universidade de Zurich, e João Cossi, do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), estudantes de São Paulo aprenderam durante a pandemia o equivalente a 28% do que teriam absorvido em igual período em aulas presenciais. Além disso, o risco de abandono e evasão escolar mais do que triplicou no período em que as pessoas tiveram de adotar medidas de distanciamento social. Em novembro de 2020, de acordo com dados da Unicef, o Brasil tinha mais de 5 milhões de meninos e meninas sem acesso à educação. Os efeitos deletérios afetaram especialmente o grupo com faixa etária entre seis e dez anos, afetando de forma contundente os números relacionados à alfabetização no país.

De acordo com o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), ainda que a internet chegue a 82,7% dos domicílios brasileiros, 95,7% das pessoas utilizam a rede para trocar mensagens de áudio, texto ou vídeo. Não existe um problema de conexão, portanto, mas de como esse conteúdo é entregue.

Hoje em dia, com soluções e tecnologias de colaboração para a sala de aula, existem caminhos para que o espaço de ensino seja transformado e adaptado às narrativas que realmente funcionam com os alunos. A pandemia poderia ter acelerado processos de interação e diminuído limites entre grupos de trabalho ou troca de conteúdo, mas o que a retomada do modelo presencial tem mostrado é que não basta discutir o modelo se não houver avanço no debate sobre o conteúdo.

O futuro da educação é remoto, híbrido e presencial. Tudo depende de as instituições de ensino estarem preparadas para extrair o melhor de cada um desses contextos.


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